09/10/2008
Conferencista internacional falará sobre fatos e valores no diagnóstico psiquiátrico
O britânico Bill Fulford é um dos conferencistas do XXVI Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Antes do evento, o especialista nas relações de filosofia e saúde mental falou com o site do CBP sobre sua linha de pesquisa e sobre os temas que apresentará no evento. Leia abaixo a entrevista completa.
Como a filosofia pode ser usada pela psiquiatria?
O trabalho de psiquiatra permite a oportunidade única de aproximar meu interesse em filosofia com a prática diária e a pesquisa científica. A psiquiatria apresenta desafios conceituais particulares (como os problemas levantados pelo conceito de transtorno mental, por exemplo) junto com dificuldades éticas únicas e problemas de conflito de valores, como por exemplo em relação ao tratamento compulsório. Esses problemas se tornaram ainda mais agudos pelos avanços nas neurociências.
Assim, a filosofia pode ajudar com todas essas questões na psiquiatria – e a psiquiatria também está ajudando a filosofia porque compartilha muito desses problemas! Se alguém quiser ler mais sobre isso, há muitos livros numa série da Oxford University Press chamada “Perspectivas internacionais em filosofia e psiquiatria”. Você pode encontrar detalhes no site www.oup.co.uk.
A reflexão conceitual da filosofia pode contribuir com a saúde mental?
A resposta curta é “sim”! De fato, uma das coisas mais empolgantes na nova psiquiatria é a velocidade em que as idéias da filosofia vêm sendo utilizadas como apoio no treinamento e no desenvolvimento da prática em saúde mental.
Um bom exemplo disso é o trabalho da “prática baseada em valores” que eu tenho feito em Londres para o departamento de saúde do governo do Reino Unido. Isso tem sido a base para algumas iniciativas políticas ao longo dos últimos cinco anos, sobre as quais falarei quando for ao Brasil. Também houve um desenvolvimento bastante estimulante através da Associação Mundial de Psiquiatria. Se você quiser mais informações sobre a prática baseada em valores, vá até o site da Warwick Medical School (www2.warwick.ac.uk/fac/med/vbm/vbp).
Os aspectos culturais devem ser considerados no tratamento de doenças psiquiátricas?
Esta não é minha área específica, mas eu concordo absolutamente que os aspectos sociais são importantes. Uma das áreas-chaves nas práticas baseadas em valores que têm sido aplicadas é o aspecto cultural. Além disso, eu comentarei este assunto e, em particular, um documento policial que foi publicado na semana passada do Departamento de Saúde em Aspectos da Saúde Mental.
De forma geral, como os psiquiatras avaliam essa concepção?
Como uma nova disciplina, a filosofia da psiquiatria tem atraído consideravelmente o interesse entre psiquiatras ao redor do mundo. A sessão de filosofia no Royal College of Psychiatrists é a segunda maior sessão da instituição. Há ainda 43 grupos em todo o mundo e uma organização base, a Rede Internacional para Filosofia e Psiquiatria - International Network for Philosophy and Psychiatry (INPP).
O INPP tem uma conferência anual. A conferência do INPP no Brasil (2003) foi, particularmente, um sucesso com mais de 800 delegados. A próxima conferência será em Portugal, entre os dias 22 e 24 de outubro. Será feito a primeira publicação dos nossos colegas em Lisboa antes de ir ao Brasil. Então, pode-se dizer que há interesse e apoio dos psiquiatras.
Quais são os avanços mais recentes nessa área?
Atualmente este é um campo de pesquisa imenso e é realmente impossível enumerá-los. Há um importante trabalho em, pelo menos, cinco áreas centrais: 1) modelos de desordem e conceitos de doenças, 2) a história das idéias, 3) filosofia da ciência, 4) práticas teóricas e éticas, e 5) filosofia da mente e fenomenologia.
A série de livros do OUP, mencionado acima, inclui o trabalho de cada uma dessas áreas. Resumos originais foram publicados no jornal internacional da John Hopkins University chamado Filosofia, Psiquiatria e Psicologia (PPP, na sigla em inglês). Você pode ter mais informações no site www.press.jhu.edu
No nível prático, a filosofia da psiquiatria tem estado na frente do genuíno desenvolvimento das relações na decisão fazer entre, de um lado, pacientes e enfermeiros como usuários deste serviço e, do outro, clínicos, pesquisadores e administradores como provedores de serviço.
Esta parceria trabalha de forma mais eficaz quando é fundada, ao mesmo tempo, em evidências fundamentadas e práticas de valores baseadas em tentativas de aproximação. Portanto, a oportunidade de pesquisa mais promissora neste momento é promover uma parceria entre usuários do serviço e provedores de serviço num contexto de avanço sem precedentes na base científica da psiquiatria.
Como você avalia a produção acadêmica brasileira em psiquiatria?
Como disse anteriormente, eu não sou especialista em psiquiatria brasileira, mas tenho conhecimento de diversos e importantes desenvolvimentos. Uma delas é a força no interesse na filosofia como uma ciência também, como a excelente conferência que tivemos em 2003, no Brasil. E eu sei, através do meu colega, Cláudio Banzato, que os módulos de ensino na filosofia e nas práticas baseadas em valores que ele acrescentou no site da Associação Brasileira de Psiquiatria têm atraído um grande número de acessos.
O que pretende trazer para debate em sua apresentação no XXVI CBP?
Eu farei duas apresentações, uma leitura no Simpósio Presidencial e uma longa conferência. Entre estas duas apresentações, os pontos-chaves que irei discutir são o rápido desenvolvimento da filosofia e da psiquiatria internacionalmente; a importância disso na neurociência, ilustrada através de um caso e o modo em que entendemos o diagnóstico particularmente no Manual de Estatísticas e Diagnósticos da América; a ascensão das práticas baseadas em valores como uma prática secundária na disciplina acadêmica na filosofia da psiquiatria e sua importante relação com a neurociência e diagnósticos; outros desenvolvimentos em práticas baseadas em valores do Reino Unido e internacionalmente e um exemplo prático de aplicações nas práticas baseadas em valores para o uso do tratamento compulsório na psiquiatria.
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